Os Três Cachorros do Senhor Heitor

Os Três Cachorros do Senhor Heitor

 

Quando Zé Luiz apareceu morto, atrás do banco da pracinha, a
cidade toda correu para ver. Até aí, nenhuma novidade. Cidade
pequena é assim mesmo. Morte é sempre notícia. Todo mundo
quer olhar, dar palpite, fazer comentários e, no fundo, dar graças
a Deus porque não foi ninguém da própria família.
Quanto pior a desgraça, mais a cidade se agita. E, naquela
manhã de vinte e nove de outubro, a pracinha parecia um
formigueiro. Veio gente até dos sítios e fazendas vizinhas. Todo
mundo queria ver o pequeno cadáver.
Era mesmo impressionante. No chão, sobre o gramado,
estava caído o corpo de um menino clarinho, franzino, de cerca de
dez anos. Todos o conheciam. Era Zé Luiz, o mesmo que vivia
correndo para cima e para baixo pela cidade inteira, até de noite,
porque não temia nada, nem alma penada nem ladrão e bandido.
Mas, agora, o rosto de Zé só mostrava medo. Os olhos
arregalados, a boca totalmente aberta, os dedos das mãos
crispados. Quem o visse podia jurar que ele tinha morrido de
susto.
A multidão se revezava para espiar o morto, e cada um saía
dando seu palpite sobre o evento misterioso. O corpo  não
apresentava nenhum ferimento. Até onde se soubesse, o menino
não tinha doença nenhuma. Só uma coisa era certa: ele deve ter
visto uma coisa terrível antes de morrer.
Uma menina bem pequena, de cerca de cinco anos, se
esgueirou por entre as pernas dos curiosos e chegou bem perto do
corpo caído. Foi ela quem observou as marcas de dentes nos braços e no pescoço do mortinho.
— Um cachorro mordeu o Zé — anunciou ela.
Fez-se um silêncio repentino na praça. Quem estava perto
agachou-se para ver melhor. A menina tinha razão. Eram três
marcas de mordida: nos dois braços e no pescoço. Pareciam
produzidas por dentes de cachorro.


O corpo foi enviado para a cidade vizinha porque em Bambuzal
não havia Instituto Médico Legal para fazer a autópsia. Três dias
depois, chegou o resultado. Zé Luiz tinha sofrido uma parada
cardíaca, possivelmente provocada por fortíssima emoção, já que
não era portador de nenhuma cardiopatia anterior. As marcas de
mordida eram muito superficiais, não tinham chegado a ferir a
pele. Aparentemente, não tinham ligação com o óbito.
À noite, Marcelo, Tito e Rosana reuniram-se na pracinha,
como faziam sempre. Tinham treze anos e conheciam Zé Luiz. O
assunto, como não podia deixar de ser, era a morte misteriosa. Ou
o assassinato, como suspeitavam.
— Foi bem ali que ele foi encontrado — apontou Rosana.
Foram até o local, um dos menos iluminados da praça. A lua
já começava a minguar, mas ainda refletia luz suficiente para que
pudessem observar o gramado. Mas não havia nada ali que
pudesse ser encontrado. Só o canteiro de plantas, agora um pouco
amassado. Além disso, nenhum deles tinha a menor vocação para
detetive. Só queriam entender a morte do colega.
— Esse lugar me dá arrepios — comentou Tito.
Não era para menos. Um vento gelado começava a soprar,
levantando do chão algumas folhas secas e balançando
suavemente os galhos das árvores. — Vamos sair daqui — sugeriu Rosana.
Ninguém protestou.
Foram caminhando em silêncio pelas ruas já escuras.
Afastaram-se do centro e continuaram a andar, sem muita noção
de para onde ir, só para respirar o ar da noite, cansar o corpo e
chamar o sono. Foi Marcelo quem reparou primeiro.
— Alguém se mudou para a casa de dona Zezé...


A casa de dona Zezé era considerada assombrada pelos moradores
da região. A mulher era uma velha meio doida, que vivia trancada
com oito cachorros. As janelas ficavam sempre fechadas, e a porta
raramente se abria.
Quando dona Zezé morreu, ninguém se deu conta. Só
muitos dias mais tarde, um vizinho estranhou a falta dos latidos.
Bateu a campainha, chamou e, diante do silêncio e do mau cheiro
que já escapava pelas frestas da janela, decidiu arrombar a porta.
Encontrou a velha e os oito cães mortos.
Era estranho que alguém tivesse se mudado para lá. Até
onde soubessem, ninguém com juízo teria comprado o imóvel.
Mesmo que não conhecesse a má fama do lugar, bastava olhar
para o jardim ressecado, as paredes descascadas e o aspecto
tétrico da casa para evitá-la.
Mas o fato é que havia luz lá dentro, embora todas as janelas
estivessem fechadas. E um som familiar, como se cães ganissem
baixinho.
— Cruz-credo, vamos sair daqui — pediu Tito, assustado.
Rosana concordou rapidamente. Só Marcelo ainda queria
ficar mais um pouco. Além de não ser medroso, estava intrigado
com a morte do menino. De alguma maneira, suspeitava de que a falta de punição do culpado (porque ele não tinha a menor dúvida
de que havia um culpado) colocava a vida de todos em risco.
Decidiu voltar lá no dia seguinte.
Sozinho.


Antes das sete da manhã, Marcelo já estava de tocaia no jardim da
casa maldita. Passou pelo portão sem fazer barulho, aproximou-se
de uma janela fechada e colou o ouvido nas persianas de madeira,
tentando escutar algum som. Nada. A casa parecia tão vazia
quanto tinha estado nos últimos anos.
Respirou fundo e tirou do bolso uma chave de fenda.
Pretendia forçar um pouco a janela. Encaixou a ponta da chave
entre duas persianas e iniciou um delicado movimento  de
alavanca até sentir a madeira cedendo sob a pressão. Até que foi
fácil. Estava podre e soltou-se sem fazer nenhum ruído. Pegou
cuidadosamente a lâmina de madeira e retirou-a de seu encaixe.
Agora, já tinha uma boa fresta por onde espiar.
No entanto, antes que pudesse saciar sua curiosidade, ouviu
um estalido às suas costas. Virou-se rapidamente. Deu de cara
com um homem alto, ladeado por três imensos cães negros.
O sujeito era grisalho e tão magro que parecia uma caveira
coberta por uma fina camada de pele. No meio do rosto
descarnado, emoldurado por uma barba rala e branca, só se
destacavam dois olhos arregalados, carregados de fúria em estado
bruto. Curiosamente, os cães tinham o mesmo olhar fixo e
raivoso.
— O que você está fazendo aí, menino?
Saída da boca de tal figura, a voz era surpreendentemente
calma. Lentamente, os cães se aproximaram de Marcelo e formaram
um semicírculo em torno dele. Acuado, o menino tentou manter o
sangue-frio e respondeu:
— Estou procurando pela dona Zezé.
O homem permaneceu impassível.
— Dona Zezé morreu faz muito tempo. Sou filho dela.
Sem alterar a voz, sempre mansa, prosseguiu:
— Gostaria de entrar?
— Não, muito obrigado. Só estava de passagem mesmo. 
Marcelo estava sem ar. Só pensava numa maneira de sair
dali. Tinha sido muito imprudente em espionar a casa maldita
sem contar a ninguém.
— Quando quiser, venha me fazer uma visita  — disse o
homem. — Meu nome é Heitor.
— Prazer, me chamo Marcelo. Mas agora tenho que ir
mesmo. Com licença  — disse o menino, tentando manter a
respiração sob controle.
A um sinal de Heitor, os cachorros se afastaram e deixaram
Marcelo passar. Foi caminhando lentamente até a estrada,
tentando parecer muito natural e tranqüilo. Só quando já estava a
uns cem metros da casa, saiu em disparada.


Pronto, agora já sabia quem morava na casa maldita. E tinha
certeza: era o assassino. O olhar de Heitor — e o dos cães — não
deixava nenhuma dúvida. O problema era provar.
Quando relatou sua aventura matinal aos amigos, foi crivado
de perguntas. Todos queriam detalhes. Mas não havia muito o que
dizer. Só uma impressão, forte demais, de que o perigo estava ali.
E estava à espreita. Necessitaria reunir muita coragem para voltar lá. E teria que
fazê-lo sozinho. Tito e Rosana avisaram logo: estamos fora!
Os dias foram passando e a tranqüilidade voltou à pequena
cidade. Cerca de um mês mais tarde, a morte do menino já se
diluía entre outras novidades: o casamento de uma viúva com um
rapaz vinte anos mais novo, a surra que a mulher do  padeiro
tinha dado nele, o sofrimento da mocinha da novela das oito.
Só Marcelo ainda sentia-se inquieto. E era esse o assunto da
conversa que mantinha com Tito. Era uma bela noite de lua cheia
e passeavam pela praça enquanto esperavam a chegada de
Rosana. Tito, sempre cauteloso, não queria mais se meter no
assunto.
— Você não é detetive, nem a polícia conseguiu descobrir
nada de errado. O Zé morreu de susto. É triste, mas é  verdade.
Deixa isso pra lá.
Marcelo não se convencia. Esperava que Rosana chegasse
para apoiá-lo, mas a amiga estava demorando. Melhor mesmo era
ir para casa e estudar para a prova do dia seguinte.  Prova de
história, sua matéria preferida. Tinha andado tão absorvido no
mistério da casa de dona Zezé que mal tinha olhado os livros.


Na manhã seguinte, não saiu de casa. Ainda estudava  o último
capítulo quando Tito chegou à sua casa, esbaforido.
— Vem correndo. Você não vai acreditar!
Marcelo ainda tentou fazer algumas perguntas. Era
impossível. Tito o arrastava, com os olhos arregalados e mal
conseguia articular uma palavra. Cerca de dois quarteirões
adiante, viu uma pequena multidão defronte a uma construção
abandonada. Tito o arrastou pelo meio das pessoas, tropeçando em todo mundo, até chegar aos fundos da casa inacabada. Caído
no chão estava o corpo de Rosana.
Tinha os olhos arregalados, como se tivesse acabado  de
presenciar uma cena terrível, a boca aberta de pavor  e os dedos
crispados. Marcelo afastou os curiosos com alguns safanões,
aproximou-se da morta e pegou seus braços. Em cada um deles,
havia uma marca de mordida de cão. Afastou os longos cabelos de
Rosana e constatou outra marca no pescoço.
Olhou para Tito. Não tinha mais dúvidas. O assassino era o
mesmo.
Foi tirado dali pelo delegado, um sujeito gordo e preguiçoso,
que agradecia a Deus todas as manhãs por ter sido lotado numa
cidadezinha tão calma. A morte de Rosana, em circunstâncias tão
misteriosas quanto as que cercavam as do menino no mês
anterior, não o agradava em nada. Só aborrecia.
— Vamos sair daqui, deixem a polícia fazer seu trabalho —
resmungava o delegado como se falasse para todos e, ao mesmo
tempo, para ninguém.
Marcelo não se segurou:
— Que trabalho? Até hoje ninguém descobriu nada sobre a
morte do Zé!
Estava indignado. Já se preparava para começar um
discurso de protesto quando viu, ao longe, uma figura conhecida.
Era o senhor Heitor, cercado por seus três cães negros, que olhava
fixamente para ele.
Foi o suficiente para secar toda a saliva que havia em sua
boca. Uma sensação ruim, de estar sendo dominado por aquele
rosto imóvel, o paralisava. Dava vontade de gritar: “Foi ele!!!”
Vontade de bater no delegado que olhava para o outro  lado e não
percebia a presença maligna. Vontade de apontar o culpado para a multidão. Mas parecia que o senhor Heitor era invisível e só
Marcelo podia vê-lo. Estava ali, parado, com seus olhos
incendiados destacados no rosto inexpressivo. Tão soturno que só
podia ser ele o culpado. E ninguém via nada. E Marcelo não
conseguia articular uma só palavra. Mudo. Paralisado. Como se
tivesse sido hipnotizado, aprisionado no fundo de um poço onde
só havia pânico.
Foi tirado do transe pelo delegado.
— Sai daí, menino, deixa a polícia trabalhar.
Ainda sob efeito da paralisia, Marcelo tentou indicar o
culpado, sua mão se moveu muito lentamente. Lentamente
demais.
Quando conseguiu apontar para o lugar certo, o senhor
Heitor já tinha desaparecido.


Denunciar o verdadeiro assassino tornou-se uma obsessão para
Marcelo. Vigiava a casa maldita de dona Zezé, estudava todos os
caminhos que passavam por lá, pesquisava a história familiar
dela: Maria José Peçanha Bastos. Mas nada fazia muito sentido.
Tirando alguns casos de loucura, a trajetória dos Peçanha Bastos
era muito parecida com a de todos daquele lugar, quase todos
netos de gente que se remediara no campo e vira os filhos
renegarem a lavoura para se tornarem barbeiros, alfaiates ou
comerciantes.
O senhor Heitor foi o quinto filho de dona Zezé, e o único
sobrevivente. Todos os outros morreram ainda crianças.
A campana na porta da casa também não rendera muitas
informações úteis. Se durante os vinte e sete dias de vigilância o
senhor Heitor saíra de casa, foi nas horas em que Marcelo tinha se distanciado dali. Durante todo o tempo da vigia, a casa
permanecera trancada e silenciosa. O único sinal de vida era a luz
que se acendia ao cair da noite e que podia ser entrevista pelas
frestas das persianas. Mais nada.
No entanto, Marcelo sabia que alguma coisa aconteceria
naquela noite. A lua estaria cheia, assim como estivera na ocasião
das outras mortes. Preparou-se cuidadosamente para pegar o
assassino em flagrante. Vestiu roupas escuras, que o camuflariam
nas sombras da noite. Calçou seu tênis mais silencioso. Pegou às
escondidas a espingarda de seu pai, verificou se estava carregada,
passou a tira de couro pelo peito e ajustou-a para que a arma
ficasse bem presa às suas costas.
Assim que abriu a porta de casa, um vento gelado passou
por dentro de sua roupa como se fosse uma cobra escorregadia.
Mas sabia que não poderia ceder ao temor. Se o fizesse, mais cedo
ou mais tarde seria a próxima vítima.
Por volta das nove da noite, partiu em direção à casa
maldita. Ficaria ali, de vigia, até que o assassino aparecesse.
Acomodou-se numa moita próxima ao portão e dispôs-se  a
esperar o tempo que fosse necessário. Levantou o pulso esquerdo
para ver as horas mas, droga, tinha esquecido o relógio.
A casa permanecia fechada. Apenas as persianas deixavam
entrever a luz mortiça interior. A estrada, totalmente deserta. O
jeito era aguardar.
Deixou que o tempo escoasse lentamente, como sempre
acontece nessas ocasiões em que nada acontece e a gente só
espera. A noite estava estranhamente silenciosa. Sapos, grilos,
corujas, cães, gatos, toda a fauna que costuma distrair a
escuridão com seu canto noturno emudecera. Não havia som de
passos, nem de vento, nem de bater de asas. Uma espessa camada de silêncio parecia comprimir seus ouvidos.
Até a luz da lua cheia parecia diferente, mais brilhante.
Esperar, imóvel, naquelas condições, provocava um
entorpecimento nos sentidos, tudo começava a parecer meio irreal,
como um sonho. Mas Marcelo não ousava se mexer. Temia que
qualquer movimento provocasse um ruído que pareceria
estrondoso em meio à quietude do lugar.


Foi tirado do torpor por um som que parecia vir de muito longe.
Prestou mais atenção. Alguém vinha chegando pela estrada. E não
estava sozinho. Agora podia perceber mais nitidamente o barulho
de passos meio arrastados e também o som característico de patas
de cachorro. Tirou a espingarda do ombro e colocou-se em posição
de tiro, ainda protegido pela moita. E foi dali que viu tudo.


Antes mesmo que os visitantes entrassem em sua linha de visão,
percebeu que a porta da casa se abria. O senhor Heitor postou-se
na soleira. Obviamente, esperava por sua presa. Poucos segundos
depois, Marcelo foi surpreendido pela chegada de um estranho
séquito.
Diante do portão, estava um menino de seus dez anos de
idade. Dois dos cães o prendiam com os dentes, cada um por um
braço. O terceiro mordia sua garganta. Os três animais vinham
andando de costas, puxando o menino que, de tão apavorado,
nem pensava em reagir.
Estava assustado, mas vivo, constatou Marcelo. O fato  lhe
deu uma dose suplementar de coragem. Antes que o grupo
chegasse à soleira da porta, onde o aguardava o senhor Heitor, Marcelo levantou-se, com a espingarda já preparada, e disparou.
O primeiro tiro acertou o cachorro que agarrava a garganta
do menino. O bicho caiu morto. A um sinal do senhor Heitor, os
outros dois soltaram a presa e pularam na direção de Marcelo.
Com mais um tiro, conseguiu acertar o segundo. Mas não teve
tempo para acabar com o terceiro. Imenso, pesado como a mais
profunda noite e forte como um animal sobrenatural, o cão
derrubou-o sem a menor dificuldade e prendeu sua garganta entre
os dentes. A última coisa que Marcelo pôde ver antes que a cara
do bicho ocupasse todo o seu campo de visão foi o menino fugindo
pela estrada.
Nem a morte dos cães nem a fuga de sua quase vítima
abalaram a impassibilidade do senhor Heitor. Da soleira da porta,
de onde não tinha se movido durante toda a cena, o homem deu
apenas um assovio curto. Obediente, o imenso cão negro conduziu
Marcelo ao interior da casa.


Para surpresa do menino, embora os móveis fossem velhos e
gastos, e apenas uma lâmpada pendesse do teto, tudo parecia
cuidadosamente organizado. A mesa estava posta para o jantar
com dois pratos de louça florida com as bordas lascadas, uma
jarra cheia de um líquido dourado, semelhante a chá, toalha e
guardanapos de adamascado branco e amarelo meio puído. Tanto
a sala quanto os objetos estavam limpos e arrumados,  a toalha
passada a ferro e os guardanapos dobrados por dentro de argolas
de alpaca.
A aparente normalidade da casa só contrastava com o odor
nauseabundo que parecia vir do segundo andar. Marcelo espichou
um olho para a escada. Não dava para ver nada. Os últimos degraus estavam mergulhados na mais completa escuridão. Mas
podia identificar claramente o cheiro: uma mistura de lodo, mofo e
corpos em decomposição.
Assim que a porta se fechara atrás do menino, o cão soltara
sua garganta. Agora, estava calmamente deitado debaixo da mesa,
como um cachorro doméstico qualquer. Marcelo não ousava se
mexei. Apenas seus olhos vasculhavam o ambiente em busca de
uma saída — que evidentemente não existia. Estava trancado na
companhia do senhor Heitor e do cão que lhe restara.
Sem alterar sua fisionomia impassível, o homem chegou ao
pé da escada e olhou para a escuridão. Em seguida,  gritou para
alguém que deveria estar no segundo andar:
— Mamãe, o menino já chegou.
Embora Marcelo não ouvisse nenhum som vindo de cima, o
homem falou, como se respondesse à presença invisível:
— Está bem.
Em seguida, virou-se para Marcelo, apontou para a escada e
disse:
— Suba.


Impossível. Suas pernas não respondiam a comando nenhum,
nem subir, nem fugir, nem mesmo tremer. Parecia que o ar tinha
se tornado mais denso de repente. Pesado, quase oleoso, tornava
os movimentos lentos, mais lentos, muito lentos. Marcelo se
lembrou de um trabalho escolar feito com gesso. Era assim
mesmo. Primeiro, mergulhou o pó branco na água e foi mexendo a
mistura, que parecia leite. Aos poucos, o líquido foi se tornando
mais espesso, e mais, e mais, até virar quase pedra.
Era exatamente isso que parecia acontecer com o ar à  sua volta agora. Não, era mais fluido, imperceptível, um  veículo
facilitador do movimento. Outra lembrança: agora estava correndo
pela rua, fugindo de uma pedrada que Rosana teimava em acertar
nele. Tudo era tão fácil. O medo ajudava a risada, que
impulsionava as pernas, que fazia o corpo atravessar o ar feito
uma flecha. Um prazer intenso.
Mas agora sabia que nunca mais haveria prazer no medo.
Estava paralisado. A voz do senhor Heitor chegava a seus ouvidos
como se viesse de muito longe. E repetia: Suba! Mas  não havia
mais movimento, não havia mais corpo nem vontade. Só o ar que
virava pedra à sua volta.
Foi quando sentiu os dentes do cachorro em sua garganta.
Uma mordida suave, mas firme, como as que as cadelas
costumam dar nos filhotes para obrigá-los a fazer alguma coisa
que não querem. O cão o puxava. E ele o seguia.
Botou o pé no primeiro degrau, sabendo que, ao chegar ao
topo da escada, só haveria escuridão.
E mais nada.
 
(Autor: Amanda Strausz)